Capítulo 1

     Meu nome é Antônia Blanc, tenho quase dezoito anos e moro com meus pais e minha irmã mais velha. Tenho problemas psicológicos como a depressão maior, anorexia nervosa e bulimia. Tomo cerca de sete comprimidos por dia e aproximadamente cinco à noite. Minha vida definitivamente não é fácil.
     Estou no último ano do colegial e não tenho a menor chance de me formar. Aliás, nem mesmo sei se sobrevivo a esse ano.
    Algumas vezes não sei como lidar com tantos problemas, mas ultimamente aprendi a me distrair com a arte. Quando tenho paciência gosto de pintar quadros. Meus pais me incentivam a fazer esse tipo de coisa, pois dizem que assim me ocupo com coisas boas.
   Faço psicoterapia três vezes na semana e há um ano atrás fiquei internada em uma clínica de reabilitação sem o menor êxito no tratamento. 
   Hoje conto essa história em uma sala de hospital. Acabei de acordar de um sedativo após a pior notícia da minha vida. Um pouco à frente você vai entender.
    A partir de agora, você passará a entender como tudo chegou a esse ponto. Conheça minha história, em 3, 2, 1...

-X-x-X-

Setembro de 2009, pátio do Colégio Mike McKenna.

     Acordei atrasada como sempre. Me arrumei lentamente tentando ultrapassar o tempo que meu pai estipulava para me levar ao colégio. Minha mãe me apressou e então, desci. 

- Bom dia, princesa! - disse meu pai. 
- Bom dia, pai. 
- Que cara é essa? 
- Não aguento mais estudar. 
- Falta pouco. - ele diz enquanto sorri.
- Pouco para...?
- Você se formar, ué. 
- Na oitava série... Não no ensino médio. 
- Uma formação de cada vez, mocinha! - brincou. 

    Não demorou muito para que chegássemos. Meu pai me deu um beijo na testa e eu desci do carro. Não estava atrasada o suficiente para evitar a fila dos alunos e o Hino Nacional.  
    Passei pela roleta, cumprimentei Seu Joaquim (Joca) e então fui para a fila. Chegando lá, encontrei minha melhor amiga (Paola) e a cumprimentei. 

- Bom dia, coisa chata!
- Bom para quem? - sorri. 
- Dormiu e comeu bem? 
- Sim. - disse friamente enquanto virava os olhos. 
- Não minta, Pinocchio!

    Não pudemos terminar aquela conversa e o Hino começou a tocar. Cantamos todos os dias em tom irreverente.  Não somente nós, mas todos os outros alunos/séries. Nosso colégio preza o patriotismo e como de se imaginar, é completamente rígido. 
     Estou cursando a sétima série e vou bem na escola. Não sou a melhor aluna da turma, mas com certeza uma das melhores. Meu comportamento porém, não é digno de boa aluna. Tenho um grupo de exatos onze amigos e não somos nem um pouco comportados. 
     No mês passado acabei entrando em crise graças à uma brincadeira de mal gosto durante um pequeno "acidente". Isso explica a preocupação de Paola em suas perguntas.

     Nossas aulas práticas de Educação Física exigiam presença e o uso de uniforme especial para tal. Bem no dia da aula, eu havia esquecido meu uniforme de ginástica em casa. Pedi ao professor para que pegasse leve nos exercícios comigo, já que para não levar falta eu faria aula com a roupa que estava. 
     A minha roupa era um jeans do tipo skinny (aquele jeans super apertado no corpo) e me limitava a determinados movimentos. 

    Como ainda era início de Setembro, estávamos no Inverno. Para descontrair, o professor decidiu começar o aquecimento com um jogo de queimada. Mesmo sabendo que meus movimentos estavam limitados, decidi fazer a aula. 
     Durante o jogo precisei me abaixar para evitar ser acertada pela bola - o que até então seria uma coisa normal - mas, ao escorregar por uma pisada em falso, além de ter sido acertada em cheio pela bola também rasguei minha calça inteira na parte de trás. 
    O barulho da calça rasgando fora tão estridente que todos na quadra ouviram! Sabendo o que tinha acontecido, me sentei no chão. A parte mais constrangedora foi um dos meninos da minha classe gritando: 

- Tinha que ser gorda! Se não fosse gorda isso jamais teria acontecido! - disse enquanto apontava na minha direção. 
  
    Juliano correu em minha direção, tirou seu casaco e me deu para que eu pudesse esconder o rasgo.

- Aqui, Branquinha! 
- Obrigada! - eu agradeci com a pouca força que tinha para falar. 

    Juliano era um dos meus melhores amigos naquele grupo enorme, talvez, o melhor de todos eles. Ele era um menino alto e gordinho, com problemas nas notas e um déficit de atenção insolúvel. 
    Era o piadista da turma e todos o adoravam. Me protegia como nenhum dos outros meninos fazia e me chamava carinhosamente de "Branquinha". Ao perceber que o comentário de Igor me afetou, ele o mandou imediatamente "calar a boca e parar de rir". Sem ele para me defender, Igor continuaria me provocando e rindo de algo que já deveria ter perdido a graça há exatos cinco minutos. 
    
    Saí da quadra chorando e amparada por minhas amigas. Liguei para casa e assim que minha mãe atendeu, pedi para que me levasse para casa imediatamente. Comovida com a minha história, disse que meu pai logo passaria para me buscar.  
     Eu não me conformava com o que tinha acontecido e a palavra "gorda" ecoava em minha mente de uma forma tão estranha...  Será que eu estava mesmo tão gorda a ponto de rasgar uma calça? Como não percebi?       

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