Final de Outubro de 2009, sala de jantar da família Blanc.
Meu tio Carlos iria passar o final de semana em nossa casa como de costume. Ele nos visita em toda última folga do mês; é o irmão mais velho da minha mãe e o mais coruja também. Tenho outro tio (Bruno) que também é mais velho do que ela, mas ele mora fora do país.
Enquanto eu ajudava minha mãe a arrumar a mesa, meu tio conversava com meu pai e me observava.
— O que foi, tio?
— Estou reparando suas mudanças.
— Que mudanças?
— Está bem mais magra do que minha última visita.
— Jura? Pensei que eu tivesse engordado!
— Não mesmo. Está tudo bem com você?
— Sim, tio. Tudo bem...
— Tem certeza? - disse enquanto me repreendia com o olhar.
— Mas é claro que tenho, oras! - fui rude.
— Calma meu bem, foi só uma pergunta.
Tio Carlos é médico e sempre teve essa mania de nos observar para ter certeza de que estamos todos bem. Ele reparou que estou mais magra e eu não quis concordar, mas tenho certeza que estou. Minha calça do colégio está ficando mais larga do que estava quando a comprei. É claro que depois daquele dia eu jamais voltaria a usar calças do tipo Skinny.
Durante a nossa janta, terminei subitamente de comer e levei meu prato para a pia. Meu tio mais uma vez me reparou e indagou:
— Sem fome, princesa?
— É... Me sinto um pouco enjoada.
— Há dias que ela não se alimenta bem, Carlos! - minha mãe completou.
— Qual o problema, Antônia? Pode falar para seu tio.
— Nenhum, tio. Só não estou me sentindo muito bem. Vou para meu quarto.
Enquanto ia para meu quarto, me senti extremamente fraca. Meu estômago implorava por mais algumas garfadas na comida, mas mesmo assim eu não comi. Já que todos estavam percebendo minha mudança, eu iria continuar. Ainda faltava muito para que eu chegasse a ter um corpo ideal, mas planejo voltar a comer normalmente quando alcançá-lo. Sem sacrifícios não há ganho.
-X-x-X-
— Antônia, é o tio Carlos. Posso falar com você?
— Pode entrar a porta está aberta!
Assim que ele entrou, virei a cadeira do computador em sua direção. Por sua feição pude perceber que nossa conversa seria longa. Eu já imaginava sobre o que ele gostaria de falar...
— Você pode enganar seus pais, mas não a mim. O que está acontecendo com você?
— É só uma preocupação boba, tio. Eu estou bem!
— Então me conta o que você sente. Você disse que se está enjoada... Como é isso?
— Um enjoo comum. Mas pode ficar tranquilo, não estou grávida!
— Não pensei sobre isso. - ele sorri. Pensei em algo como algum problema gástrico, talvez.
— Mas eu me sinto bem, tio. Pode deixar que caso eu sinta qualquer coisa, lhe aviso!
— Posso confiar? - disse enquanto estendia a mão fechada em minha direção.
— Pode! - bati em sua mão.
Meu tio tinha se tornado naquela noite um grande problema para mim. Tenho certeza de que ele pediria maior atenção dos meus pais sobre meu comportamento. De qualquer forma, eu não poderia ceder aos caprichos da minha família. Que problema tem em comer menos?
Quando ele saiu do meu quarto decidi pesquisar na internet sobre como emagrecer de uma forma rápida e eficiente; assim meu plano de emagrecer e voltar a comer normalmente daria certo o quanto antes.
Encontrei algumas dietas e favoritei no computador. A partir do dia seguinte eu teria mais problemas ainda para levar meus planos à frente. Iríamos a um churrasco para comemoração em família. Era o aniversário de algum primo ou tio, mas eu não conseguia lembrar. (...)
A noite passou depressa e diferente do que vinha acontecendo comigo, eu dormi até demais. Acordei exatamente às dez da manhã com meu pai batendo na porta do quarto.
— Acorda, Bela Adormecida!
Olhei para o relógio e pulei da cama. Estavam todos me esperando no andar debaixo, inclusive minha irmã mais velha (Lorena).
— Qual a dificuldade em acordar cedo, menina? - minha irmã brincou.
— Não sei o que houve... O sono tomou conta de mim.
— Nem eu que trabalhei a noite toda estou assim! - ela disse.
— O que estão esperando?
— Hoje vamos ao churrasco de aniversário do seu tio Paulo. - meu pai respondeu.
— Mas que horas?
— Às duas.
— E por que me acordar agora? - eu brinquei.
— Por que perder o dia todo? - minha irmã perguntou.
— Por mim poderia passar o mais rápido possível...
Depois da minha fala em tom misterioso, Lorena me interrogou com os olhos, então para evitar um interrogatório direto fui para a cozinha. Eu poderia ter ido para um lugar pior?
— Filha, deixei a mesa pronta para você.
— Obrigada, mãe.
Já que meu tio provavelmente tinha pedido maior atenção com a minha alimentação, eu não poderia me negar a comer. Peguei um pão com manteiga, queijo e presunto e meio copo de suco de laranja.
Normalmente eu comeria um pão francês, alguns biscoitos e tomaria cerca de dois copos de suco, mas como eu sabia que de noite não poderia fugir do tal churrasco, decidi maneirar no café da manhã.
— Pai, minha tia ligou e pediu para irmos agora!
— Por que não me deu o telefone, Lô?
— Ela estava toda atarefada. Disse que precisa de ajuda com a decoração e comida.
— Então vamos, amor? - meu pai diz com a voz terna tentando convencer minha mãe.
— Tudo bem. - ela concorda.
— Meninas, levem suas roupas e se arrumem lá.
— Posso levar uma amiga? - eu disse.
— Pode sim, filha. - meu pai concordou. — Mas será melhor que ela chegue com os convidados.
— Tudo bem, é a Paola. Valeu, pai!
Chegando ao quarto, Lorena enfim resolveu tirar a história a limpo.
— Me conta agora!
— Contar o que? - disfarcei.
— Que história é essa de querer que o dia passe mais rápido?
— Tédio.
— Sei... Não mente pra mim!
— Mas é verdade, não tem motivo especial.
— Eu vou fingir que entendi. Olha, olha, Antônia...
— Tá bom Lorena, vê se escolhe a roupa logo!
-X-x-X-
No caminho da casa de minha tia, liguei para Paola. A ideia era que ela fosse e encobertasse minha nova forma de alimentação: o mínimo possível. Disse que aproveitaria para contar a ela algumas coisas e assim que ela perguntou se era sobre "aquilo", eu respondi que sim. Ela preocupada disse que com certeza estaria lá. Não sei o que seria de mim se não fosse Paola!
Enquanto minha mãe e irmã ajudavam na cozinha, meu pai ajudava com as carnes e eu com o restante da decoração. Eu precisava forrar as mesas e colocar quatro lembrancinhas em cada uma delas.
Enquanto minha mãe e irmã ajudavam na cozinha, meu pai ajudava com as carnes e eu com o restante da decoração. Eu precisava forrar as mesas e colocar quatro lembrancinhas em cada uma delas.
O aniversário era do meu tio Paulo - irmão do meu pai - e seria uma festa surpresa, organizada por minha tia Aline. Eu não me sentia confortável por estar ali, afinal, quando a festa começasse eu seria vigiada. Como Paola disse que iria, eu poderia fingir que estava tudo bem e comendo como sempre. Mais uma vez, eu tinha planos. Que desconfortável falar sobre comida o tempo inteiro...
-X-x-X-
Depois de ter organizado o jardim gigantesco dos meus tios, finalmente chegou a hora de me arrumar. Para evitar os comentários da família sobre eu ter engordado ou emagrecido, optei por um mini-short jeans e uma blusa larga. Talvez esse look tivesse me deixado um pouco "cheinha", mas minha família não era cruel com estereótipos.
Liguei para Paola e ela disse que já estava chegando. Em poucos minutos, sua mãe a deixara no portão dos meus tios. Eu perguntei à mãe dela se teria problema caso ela dormisse na minha casa, que para meus pais não seria um problema e ela respondeu que preferia conversar com um deles primeiro.
Fui correndo chamar minha mãe que afirmou que não seria um problema caso Paola dormisse lá em casa. Até disse que ela poderia pegar algumas roupas comigo para passar a noite e que fazia questão de deixá-la em casa na manhã de domingo.
Com tudo organizado, entramos. Perguntamos se a mãe dela gostaria de ficar, mas ela preferiu ir para casa. Assim que chegamos ao jardim, escolhemos uma mesa afastada de onde estavam as comidas e então eu comecei a contar meus planos.
— Você precisa parar com isso, Antônia!
— É temporário, Paola, eu juro!
— Tem certeza? Você já emagreceu o suficiente!
— Não o suficiente... Mas falta pouco. Eu prometo que vou voltar a comer normalmente.
— Tudo bem. Mas você tem que prometer que vai mudar!
— Eu prometo! Agora, quando as comidas chegarem aqui, vamos dividir.
— Mas você tem que comer o suficiente para se manter.
— Eu sei dos meus limites!
Liguei para Paola e ela disse que já estava chegando. Em poucos minutos, sua mãe a deixara no portão dos meus tios. Eu perguntei à mãe dela se teria problema caso ela dormisse na minha casa, que para meus pais não seria um problema e ela respondeu que preferia conversar com um deles primeiro.
Fui correndo chamar minha mãe que afirmou que não seria um problema caso Paola dormisse lá em casa. Até disse que ela poderia pegar algumas roupas comigo para passar a noite e que fazia questão de deixá-la em casa na manhã de domingo.
Com tudo organizado, entramos. Perguntamos se a mãe dela gostaria de ficar, mas ela preferiu ir para casa. Assim que chegamos ao jardim, escolhemos uma mesa afastada de onde estavam as comidas e então eu comecei a contar meus planos.
— Você precisa parar com isso, Antônia!
— É temporário, Paola, eu juro!
— Tem certeza? Você já emagreceu o suficiente!
— Não o suficiente... Mas falta pouco. Eu prometo que vou voltar a comer normalmente.
— Tudo bem. Mas você tem que prometer que vai mudar!
— Eu prometo! Agora, quando as comidas chegarem aqui, vamos dividir.
— Mas você tem que comer o suficiente para se manter.
— Eu sei dos meus limites!
Durante a tarde inteira fizemos esse esquema. Dividimos a comida e eu comia só para me verem comer. Meus pais e minha irmã estavam ocupados demais conversando com todos na festa, então não me vigiaram como eu imaginava. Por eu ser mais nova e já estar acompanhada, não fizeram muita questão da minha atenção e me deixaram bem à vontade.
Meu tio chegou e realmente ficou agradecido pela surpresa. Ao cumprimentá-lo me agradeceu por toda a decoração, mesmo que eu não tivesse diretamente ligada à ela.
A festa seguiu normalmente até que fomos para casa. Eu me diverti o suficiente para ter ótimas lembranças do dia... Preciso de mais dias assim.
A festa seguiu normalmente até que fomos para casa. Eu me diverti o suficiente para ter ótimas lembranças do dia... Preciso de mais dias assim.
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