Capítulo 7

     Última segunda-feira de Novembro de 2009, colégio Mike McKenna

     Cheguei atrasada e tive que ir correndo para a classe. Assim que entrei na sala pude ver e ouvir as pessoas comentando coisas a meu respeito.
     Procurei o lugar vago próximo de Paola que me esperava com o semblante terrivelmente pálido.

— Tudo bem com você? - sussurrei.
— Não muito. Você mal sabe... - fomos bruscamente interrompidas por Rejane.

— Bom dia, turma!
— Bom dia. - um coral desarmonioso responde.
— Tenho algumas notícias sobre a formatura.

     Imediatamente um silêncio profundo se instalou pelo lugar. Todos esperavam qualquer coisa menos...

— O tema da festa foi mudado para "Baile de Máscaras". - Rejane disse decepcionada olhando fundo em meus olhos.

    Dessa vez, o mal havia se instalado pelo lugar. Ouvi piadas, gargalhadas e todo o tipo de humilhação que possa imaginar. Paola sussurrou em meu ouvido "— Seja forte!" e eu precisei me conter. Não chorei, não fui salva por ninguém... Mas permaneci estagnada em minha cadeira.
     A formatura não fazia mais sentido algum para mim. A questão era... O que foi tão forte para que mudassem o tema proposto?

— Recebi um abaixo assinado ontem com assinaturas de alunos e responsáveis. Por motivos de força maior, mesmo que ache um completo exagero tamanha mobilização, a festa teve seu tema alterado. Os trajes também mudaram. Os meninos devem escolher terno ou smoking de cor preta ou azul marinho. Já as meninas deverão usar vestidos longos e também com tons escuros. Não esqueçam de avisar para os convidados levarem seus respectivos convites.

     Enquanto perguntavam mais alguns detalhes da formatura, eu organizava os pensamentos. Além de precisar ser forte o bastante para encarar tudo isso eu tinha de tomar a decisão sobre desistir da formatura e todo o resto.
    A aula seguiu e eu fui provocada o tempo todo. O intervalo demorou a chegar e foi quando eu pude conversar com mais calma com Paola e Gabriel que me acalmaram.

— Você vai desistir da formatura por causa dos outros? - diz Gabriel indignado.
— Vou desistir porque não faz o menor sentido me formar com eles.
— Mas e nós? - diz Paola em tom revoltado.
— Você tem que me entender! Isso não inclui vocês!
— Ficou bem claro que isso não nos inclui! Você vai fazer o que eles querem!
— Não vou cumprir as regras do jogo deles. Foi tudo arquitetado para eu me sentir um lixo!
— E você serviu direitinho como pião! Está sendo fraca, Antônia! Escolheríamos nosso vestido juntas! - ela se emociona.
— Eu não posso fazer isso, não me cobra.
— Você desistiu de mim! Desistiu dos seus amigos por pessoas que não dão a mínima 'pra' você!
— Ela não desistiu de nós, Paola. Desistiu dela mesma. - disse Gabriel, nos deixando.

    Enquanto um turbilhão de sentimentos tomava conta de mim, tentei ser sensata o bastante para tomar a decisão certa. Desistir da formatura poderia ser a melhor opção agora, mas no futuro poderia trazer arrependimentos irremediáveis.
     Eu precisava de um motivo maior do que isso para me fazer desistir completamente. Depois de conversar com Paola, ela conseguiu entender o meu lado, mas o pior ainda estava por vir. (...)

Última segunda-feira de Novembro, casa da Paola.

     Chegamos em casa e depois de cada uma tomar seu banho, almoçamos, conversamo e fizemos planos para o final de semana. Como nenhum programa parecia bom o bastante na TV, decidimos usar o computador que fica no quarto de Paola.
   
     Um pouco antes ela me contou sobre o álbum da formatura de seus pais. Enquanto ela buscava em outro cômodo, comecei a usar o computador normalmente. Logada na minha rede social preferida (o chat), assim que entrei fui surpreendida com a mensagem afoita de Gabriel.

Gabriel diz: 
Oi!! Já usou o Orkest hoje?

Antônia diz:
Não, só o Message Me... Pq? 

Gabriel diz: 
Vc ñ vai acreditar no que tá acontecendo... 

     Enquanto isso, Paola chegou ao quarto com os álbuns. Contei a ela subitamente e então ela se sentou ao meu lado.  A ansiedade tomava conta pela novidade, mas não sabíamos o que realmente pensar. Decidi ser o mais direta possível. 

Antônia diz: 
O que tá acontecendo? Conta logo, Biel!

Gabriel diz: 
Criaram uma página falsa pra falar mal de você! Olha só: *link*
     Li aquela frase centenas de vezes tentando entender sem o menor sucesso. Paola esperando que meu estado de quase-transe passasse tomou o mouse para si e clicou no dito link.

Antônia diz:
Não consigo acreditar...
     Na página tinha coisas horríveis ao meu respeito. Ofensas, mentiras, xingamentos... Pedidos desesperados para que eu me mudasse de escola, de cidade ou país. Mas o que doeu mais foi ver que a maioria dos meus colegas de classe comentavam achando aquilo incrível. 
  
    Eu não consegui me conter e comecei a chorar. As pessoas comentavam sobre minhas decisões quanto à formatura e chegaram a dizer que eu tinha um envolvimento amoroso com Paola. Falaram sobre minha aparência, forma física e jeito de falar. Todos sabiam que eu tinha complexos quanto ao meu corpo então... Eu estava devastada.

Antônia diz: 
Quem criou a página? Aqui é a Paola, Biel!!!

Gabriel diz:
Ñ sei... Só me mandaram! 

Antônia diz: 
Quem mandou?
Gabriel diz:
O Pedro!
Antônia diz: 
Ele tá online? 

Gabriel diz: 
Ñ

Antônia diz:
Quando eu descobrir quem criou a página vc vai ver. 

Gabriel diz: 
Cadê a Antônia?
Antônia diz:
Chorando desesperada aqui. Vou sair, Biel. Beijoss!!!
     Se eu não estivesse com Paola exatamente naquele momento, sinceramente não sei como reagiria. Certamente eu não teria como fugir dos comentários da terça-feira ou qualquer outro dia. 

— Agora você tem um motivo forte o suficiente para eu desistir?
— Sim. - disse enquanto me abraçava forte.
— Por que isso de repente?
— Eu não sei, amiga! Eu não sei! Mas vamos descobrir quem fez isso!
— Do que adianta? Eu sou odiada por essas pessoas!
— Vamos contar para a diretora do colégio. Vamos mostrar a página.
— Se a formatura for cancelada vão queimar minha casa!
— Os bombeiros existem para isso! - assim que ela disse não aguentei e sorri.

     Imprimimos a página e começamos a montar um relatório. Primeiro a página inteira, depois os tópicos e para fechar com chave de ouro, uma ampliação de todos que comentaram coisas horríveis sobre mim.
     Alguns comentários eram anônimos, mas mesmo assim, os coloquei. Nosso relatório tinha também um texto explicando como tudo começou.

    No fundo, não fazíamos ideia de onde essa revolta havia surgido, mas ainda assim fizemos o dito relatório. Também não sabíamos se a diretora aceitaria esse tipo de "caso", mas não perderíamos nada ao tentar. A partir do dia seguinte eu precisaria lutar não só contra uma turma - quase - inteira, mas também contra meus próprios fantasmas. 

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